18 de janeiro de 2011

Pelo direito de saber ler e escrever

Texto: Ana Rita Martins
Para a Revista Nova Escola

(via Educar para Crescer)

Garantir o acesso à escola e o fim da evasão é a chave contra o analfabetismo. Conheça as melhores soluções das cidades que estão vencendo essa batalha



Iniciativas inovadoras na Educação de Jovens e Adultos contribuem para a redução do número de analfabetos no Brasil

No Brasil, existem 14,2 milhões de pessoas que não são capazes de ler o rótulo de um produto no supermercado, identificar o destino num letreiro de ônibus ou assinar o próprio nome. Essa triste estatística mostra que, em pleno século 21, ainda não conseguimos erradicar o analfabetismo. Se os números mostram o quanto temos a evoluir, a boa notícia é que as soluções eficazes estão bem aqui, no nosso país. Dentre os 5.564 municípios brasileiros, um pequeno grupo se destaca. Uma parte ostenta índices de países desenvolvidos. A outra, reduções expressivas no total de iletrados.

O primeiro time reúne os municípios livres do analfabetismo, título concedido pelo Ministério da Educação (MEC) em 2007 àqueles em que a quantidade de habitantes sem instrução não ultrapassava 4%. Apenas 64 localidades compõem esse panteão, todas nas regiões Sul e Sudeste. Em grande medida, os índices de dar inveja têm uma explicação histórica - a luta dos imigrantes em não deixar ninguém sem escola. "O maior exemplo são as cidades de colonização alemã em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, onde já nas décadas de 1920 e 30 quase não havia analfabetos", escreve o pesquisador Lúcio Kreutz no livro Os Alemães no Sul do Brasil. Em cidades como as catarinenses Blumenau, Jaraguá do Sul e Pomerode, o foco atual recai na Educação Básica para manter os índices baixos, evitando a produção de novos analfabetos.

O segundo conjunto contempla os chamados municípios alfabetizadores, denominação do MEC para aqueles que reduziram pela metade o índice de iletrados entre 2000 e 2007. Centrando esforços na Educação de Jovens e Adultos (EJA), os dois grupos de cidades oferecem alternativas para vencer o problema. NOVA ESCOLA visitou 11 delas, registrou as melhores práticas e as reuniu numa lista de sete ações que podem inspirar a transformação em outras localidades.

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1. Encontrar quem precisa ser alfabetizado
Num país com dimensões continentais como o Brasil, nem sempre é fácil chegar até quem precisa ser alfabetizado. E, mesmo nas áreas mais urbanizadas, onde o acesso aos iletrados é teoricamente mais fácil, a maioria das secretarias de Educação não dispõe de estatísticas confiáveis sobre quem são os analfabetos do município. O método mais tradicional - usar a divulgação na própria escola para atingir estudantes em potencial - nem sempre funciona. "As campanhas de alfabetização têm resultados insuficientes porque o cartaz não é a melhor forma de atrair os possíveis alunos. Visitá-los, conhecer a realidade em que vivem e conversar é a melhor forma de chamá-los para estudar", afirma Sonia Giubilei, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gepeja), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em Curitiba, a ideia bem-sucedida foi aproveitar o cadastro da Fundação de Assistência Social (FAS) para identificar os moradores de rua que não sabiam ler e escrever. Em regiões mais inóspitas, como Silves, a 330 quilômetros de Manaus, a "caçada" exigiu viagens de barco pela região (leia o destaque na página 87). "Depois que fomos atrás dos alunos e formamos a primeira turma, que deu certo, a procura aumentou", conta o professor José André Viana.

2. Criar horário de aulas para atender todos os públicos
Na alfabetização de jovens e adultos, há diferentes perfis de alunos. Existem os aposentados com tempo livre, os adolescentes que trabalham durante todo o dia, profissionais que fazem bicos etc. Para que todos tenham a oportunidade de se alfabetizar, é fundamental levar em conta essas diferentes realidades. Oferecer diversos turnos é uma das maneiras de facilitar o acesso, pois é fundamental que os alunos consigam aliar as aulas ao seu dia a dia. No Centro Municipal de Educação do Trabalhador Paulo Freire (CMET Paulo Freire), em Porto Alegre, existem horários para todos os públicos (leia o destaque acima). Flexibilizar a duração das aulas também é outro incentivo para aqueles que têm uma rotina mais dura. Em Curitiba, as aulas nas turmas de EJA de 1ª a 4ª série para moradores de rua duram apenas duas horas. "Os alunos costumam ter baixa capacidade de concentração e, por isso, achamos mais conveniente estabelecer esse limite. As aulas também são à tarde, já que, à noite, muitos trabalham em bicos nas ruas, como guardadores de carros", conta a professora Elizabeth Meucci. Trabalhadores sazonais também merecem um esquema especial. "Nas zonas rurais, as pessoas estão condicionadas aos ciclos das safras. A escola deve se moldar a isso", afirma Márcia Oliveira, coordenadora da EJA do Instituto Paulo Freire. Em São João do Oeste, a 691 quilômetros de Florianópolis, de economia essencialmente agropecuária, 33% das aulas da alfabetização na EJA são presenciais e o restante é completado por meio de pesquisas e lições de casa. Há atividades pelo computador e tudo é corrigido pelo professor, que leva para casa as atividades e devolve tudo comentado. Segundo o Censo de 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade tem o menor índice de analfabetos do país: 0,91%.

3. Investir em formação inicial e continuada
É consenso entre os especialistas que a formação dos professores é o fator de maior impacto na qualidade do trabalho e no resultado positivo dos alunos. Entretanto, muitos programas de EJA apostaram no voluntariado despreparado para dar aulas, como se qualquer pessoa que soubesse ler e escrever fosse capaz de alfabetizar, o que está muito distante da verdade. Mesmo quando se trata de formação de docentes, há sérios problemas. O principal é que a formação inicial pouco aborda a EJA. Segundo pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC), realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC), a etapa é abordada em apenas 1,5% do currículo. Por isso, o investimento em formação continuada é imprescindível. O ideal é que ele inclua uma rede de apoio dentro da própria escola, como ocorre em Salvador (leia o destaque à esquerda). Em Porto Alegre, além do investimento na formação continuada, investe-se também na valorização do professor da EJA. Na rede municipal, são 450 docentes com plano de carreira idêntico ao dos que lecionam na rede regular. O resultado disso é que os educadores acabam investindo mais na própria formação (95% deles têm pós-graduação). Para Vera Masagão Ribeiro, coordenadora da ONG Ação Educativa, na capital paulista, a política é acertada. "Muitos professores encaram a EJA como uma forma de bico. É preciso resolver essas questões estruturais para o segmento se profissionalizar."

4. Combater os altos índices de evasão na EJA
Na EJA, manter os alunos em sala envolve permitir que eles conciliem as aulas com o trabalho e os afazeres domésticos. Também é preciso lidar com o fato de muitos já terem estudado e parado, o que requer cuidados em dobro para que não desistam novamente.

Procurar saber o motivo das faltas ou do desânimo dos alunos é a saída em Itapiranga, a 350 quilômetros de Manaus. Por lá, faz parte da rotina dos professores a busca pelos alunos que se ausentam muito ou que ameaçam abandonar a escola. "Ninguém no município falta mais de três dias sem receber uma visita. Buscamos entender os motivos e, com base neles, pensamos com o estudante as alternativas para que ele possa recuperar o conteúdo perdido", afirma o secretário municipal de Educação, José Melquias Josebec Santos. O foco no aprendizado também faz parte do cardápio de Guajará, a 1.476 quilômetros de Manaus. Quando alguém falta, o professor vai até a casa passar as atividades do dia anterior. O cuidado fez com que a taxa de evasão na alfabetização de jovens e adultos do município tivesse a média de 7%, enquanto a nacional é de 32%.

5. Oferecer materiais didáticos específicos para a EJA
Ignorar o percurso de vida do adulto na hora de alfabetizá-lo é um dos equívocos mais recorrentes cometidos na EJA (conheça outros no quadro à direita). Os materiais didáticos e a metodologia de ensino precisam tratar daquilo que interessa ao aluno e faz parte do seu universo. Nesse aspecto, a novidade positiva é que a partir do ano que vem o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do MEC, disponibilizará obras voltadas à EJA. Para acompanhá-las, o ideal é que cada município produza seu próprio material, contemplando o contexto da região. Em São João do Oeste, a qualidade dos livros elaborados pela equipe da secretaria é um dos fatores que contribuem para o baixo índice de analfabetismo (leia o destaque acima). Em Guajará, há um trabalho de Matemática, com o ensino de noções do sistema numérico e de geometria, com atividades que envolvem dinheiro, reconhecimento de cédulas e cálculos de compra e venda de materiais manipulados no extrativismo e na pesca, atividades que fazem parte do dia a dia da maioria dos alunos.

6. Aumentar os recursos para a EJA
Para combater o analfabetismo, é necessário que tanto o Governo Federal como estados e municípios priorizem o investimento na EJA. A parceria entre prefeitura e União foi a estratégia do avanço em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, que reduziu o total de analfabetos em 31% entre 2001 e 2009. Em muitos municípios, porém, é preciso melhorar a infraestrutura da modalidade, com a criação de mais centros de alfabetização. Segundo Vera, o ideal é que a EJA tenha seus próprios espaços ou ocorra dentro de espaços de locais destinados a adultos, como universidades públicas e privadas, com murais, cantinas e horários adequados. "A EJA, no Brasil, ainda está à mercê dos horários de funcionamento das escolas da Educação Básica. Não se oferecem vários turnos justamente porque os horários já estão tomados pelo ensino regular. Além disso, é comum os adultos estudarem em salas com temáticas e materiais infantis dispostos nas paredes", enumera a especialista.
7. Trabalhar a inclusão para jovens e adultos
Assim como no ensino regular, para que os alunos com deficiência possam ser incluídos, é necessário que o professor saiba flexibilizar o currículo de acordo com o potencial de aprendizagem de cada um deles. O objetivo principal é envolvê-los efetivamente na aprendizagem, garantindo os recursos necessários para atender a suas necessidades, como ocorre em Niterói (leia o destaque acima). Integrá-los a trabalhos em grupo, estabelecendo um fluxo de colaboração e possibilitando que eles participem de acordo com sua capacidade, é um passo fundamental para um processo de inclusão eficiente. Em outros momentos, é necessário flexibilizar materiais ou o próprio planejamento. Como às vezes esses estudantes precisam faltar por causa de compromissos médicos, o docente necessita prever tempo para a recuperação de conteúdos.

Os erros mais comuns

- Usar livros e materiais infantis. É preciso envolver os adultos na alfabetização com temas que lhe dizem respeito, como o mercado de trabalho e questões da atualidade.

- Desconsiderar as razões de cada um para voltar à escola. Para alfabetizar um adulto, é necessário ouvi-lo. Por que ele quer aprender a ler e escrever? Para redigir cartas? Ou ainda para lê-las em segredo, sem a necessidade de compartilhar as notícias com vizinhos? Tudo isso deve ser considerado para que a aprendizagem ganhe sentido.

- Não respeitar o nível de cada um. Adultos têm perfis, idades e ritmos de aprendizagem variáveis. O ideal é o acompanhamento individual, sem fazer comparações com colegas.

14 de janeiro de 2011

Perfil do Professor e do Aluno no Ensino Superior

Professor universitário de instituição pública tem mais titulação e se dedica mais tempo que docente de rede particular

No ensino superior público, 75% dos docentes são doutores ou mestres; no particular, esse percentual chega a 55%. Os dados foram divulgados no Censo da Educação Superior de 2009, divulgados nesta quinta-feira (13). O país registra um total de 307.815 docentes, sendo 340.817 em exercício e 18.272 afastados.



Dentre os professores de universidades, faculdades, centros universitários e institutos federais a titulação está distribuída da seguinte forma:

Doutores: públicas (48%); particulares (14%);
Mestres: públicas (27%); particulares (41%);
Especialistas: públicas (14%); particulares (38%);
Graduados: públicas (11%); particulares (7%).

De 2008 para 2009, a quantidade de funções docentes cresceu 6%; a maior demanda por professores universitários foi a de doutores (16%). O professor padrão das instituições públicas é homem, tem 44 anos, é brasileiro, doutor e trabalha em regime integral. Já o docente de faculdade particular é mais jovem, com 34 anos, também homem e brasileiro, é mestre e trabalha em regime horista.

Regime de trabalho


Nas públicas, a maioria dos professores trabalham em tempo integral (78,9%); já nas particulares, a maioria é horista (53%) e só 21,5% está em regime integral. De acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases), do MEC (Ministério da Educação), é aconselhável que pelo menos um terço do corpo docente trabalha em tempo integral.

A legislação também prevê que pelo menos um terço dos docentes seja mestre ou doutor; os dois tipos de instituições contemplam essa diretriz.

Universitário brasileiro é mulher, tem 21 anos e faz bacharelado, diz Censo da Educação Superior

As alunas do sexo feminino são maioria dentre os estudantes matrículados no ensino superior, tanto na modalidade presencial (55,1%) quanto na de educação a distância (EAD) (69,2%). Os dados foram divulgados no Censo da Educação Superior de 2009, divulgado nesta quinta-feira (13). Dentre os alunos concluíntes, elas também são maioria: 58,8% em cursos presenciais e 76,2% em EAD.

No Censo de 2009, foi introduzido um novo conceito de aluno, como o sujeito vinculado à educação superior. Até 2008, o estudante era considerado somente a partir da matrícula, ou seja: um aluno que tinha mais de uma matrícula era contado mais de uma vez.

Em cursos presenciais, o padrão do estudante é mulher, com 21 anos. Essa aluna entrou na faculdade aos 19, por meio de vestibular, e irá se formar com idade média de 23 anos, numa faculdade particular, em um curso de bacharelado.
Licenciatura é preferência na EAD

Em cursos EAD, o aluno padrão também é mulher. Ela, no entanto, entra na graduação mais velha, com 28 anos, e irá se formar com 31. A forma de ingresso mais comum também é o vestibular numa instituição privada, mas o tipo de curso preferido é o de licenciatura.

O total de estudantes matriculados em 2009 foi de 5,9 milhões. Destes, 36.294 entraram em instituições públicas por algum tipo de cota. O tipo de ingresso por cota de escola pública ocorre com maior frequência (69%), seguido pelo de critério étnico (25%) e pelo de renda familiar (4%).

Errata: idades dos alunos no infográfico

Fonte: Uol Educação

A arte da improvisação

"Quanto melhores e mais detalhados os materiais disponíveis, mais o professor pode se preparar para o momento da aula"

"Sabemos com segurança: quanto mais planejada a aula, mais os alunos aprendem. Pouquíssimos têm ou vocação ou tempo para inventar boas aulas."

Quem não admira um ator cujas improvisações fluem com espontaneidade? Ou um conferencista com ideias que borbulham ao sabor do momento e de sua inspiração? Assisti a uma conferência do Amyr Klink. No princípio, ele nem sabia bem o que iria dizer, mas, ao cabo de alguns minutos, as ideias magicamente se juntaram, compondo uma apresentação brilhante. Nossa cultura valoriza as artes da improvisação, seja no palco, seja nos repentistas do Nordeste, seja nas salas de aula. Genial é aquilo que brota da mente criativa, sem as peias do ensaio e da preparação exaustiva. Só que não é bem assim. A arte da improvisação é uma farsa. Os mais notáveis improvisadores são os que mais se preparam. Amyr Klink planeja detalhadamente as suas expedições e ensina isso a executivos. Será que a aparência de improvisação não seria parte da preparação e do charme?

Os cômicos e os repentistas improvisam sobre linhas que já praticaram. Como disse sua filha, para Fernanda Montenegro, "memorizar uma obra é um ato de loucura, uma luta bestial... é no cansaço e na repetição... que se atinge a tão cobiçada mestria". Marx levou dez anos burilando a forma literária de O Capital. Durante a guerra, De Gaulle falava pelo rádio para o povo francês. Poderia ler o discurso, quem iria saber? Mas não, era todo decorado, para parecer mais espontâneo. Há uma escola de pintura chinesa em que os quadros são pintados em poucos minutos. Mas, para isso, é preciso praticar por décadas a fio.

Na educação, é a mesma coisa. Richard Feynman, prêmio Nobel de Física, foi um dos homens mais versáteis e brilhantes do século XX. Em suas memórias, descreve o trabalho exaustivo requerido para preparar suas aulas e encontrar bons exemplos e exercícios. Para seu livro (Aula Nota 10), Doug Lemov observou metodicamente como agem os professores americanos mais eficazes do ensino básico. Concluiu que os mestres geniais preparam minuciosamente as suas aulas. Relatos de bons professores brasileiros mostram o mesmo. Esses exemplos contradizem uma seita pedagógica que prega um ensino cujas aulas são "criadas" pelos professores e vocifera contra os livros-texto, passo a passo, que escravizariam o mestre a um script pré-empacotado. O pior dos crimes são cursos que ensinam a usar os livros. Os inimigos prediletos dessa seita são os chamados "sistemas de ensino", operados pelos sinistros "apostiladores". Não obstante, pesquisas recentes indicam claramente que, nos municípios em que foram adotados tais sistemas, os alunos estão meio ano à frente dos que não os adotaram.

Pensemos bem, os comandantes de aviões Boeing fazem cursos para pilotar o Airbus (ou vice-versa) empregando os detalhadíssimos manuais da fábrica. Se pilotos experientes precisam aprender a manejar os novos equipamentos, por que os professores não teriam de aprender a usar os novos livros? Na verdade, sólida pesquisa mostra que os alunos aprendem mais quando os professores foram instruí­dos nas artes de utilizar os livros adotados. De duas uma, ou a improvisação é a crença em uma teoria pedagógica totalmente equivocada, ou é a desculpa esfarrapada dos malandros. Sabemos com segurança: quanto mais planejada a aula, mais os alunos aprendem. E, para bem planejar, nada como usar as melhores práticas, acumuladas ao longo dos anos. Pouquíssimos têm ou vocação ou tempo para inventar boas aulas.

Vendo a questão de outro ângulo, a partir da Revolução Industrial, todo o processo produtivo se baseia na divisão de trabalho, para que cada etapa seja feita por quem melhor dominou as suas artes. No caso da educação, alguns são melhores para buscar as maneiras mais eficazes de ensinar, seja regra de três, concordância ou circuitos elétricos. Alguém saberá fazer as melhores ilustrações ou PowerPoints. Sendo difícil preparar provas que puxem pelo intelecto, e não pela decoreba, esse é trabalho para profissionais de testes. Ao contrário do que se pensa, tudo isso pode ser feito por outrem, sem engessar o ensino. Nesse caso, o que mediocriza o ensino são as perguntas improvisadas, que acabam por requerer apenas dotes de memória. Perguntas e exercícios bem concebidos, pelo contrário, podem dar asas à imaginação.

Em suma, quanto melhores e mais detalhados os materiais disponíveis, mais o professor pode se preparar para o momento da aula, ajudando a afastar o Brasil de um ensino catastrófico. E, no fundo, a aula é o elo mais nobre e crítico do processo de ensino.

Claudio de Moura Castro é economista.

Fonte: Revista Veja via Educar Para Crescer

11 de janeiro de 2011

Educação audiovisual estimula pensamento científico


por Sandra O. Monteiro
Da Agência USP

A educação audiovisual pode ser um diferencial na educação brasileira, principalmente nas periferias. De acordo com um estudo realizado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, os alunos são livres para gravar e mudar parâmetros como luz, foco ou distâncias, depois analisam e comparam os resultados.

“É um estímulo ao pensamento científico. Aos poucos surge um pensamento crítico-analítico em que cada conceito na linguagem audiovisual é formado ou reformulado por meio de uma compreensão natural”, conta a cineasta Moira Toledo, autora da tese de doutorado Educação Audiovisual Popular no Brasil: Panorama, 1990-2009, defendida em 2010.

Segundo o estudo, 80% das entidades que desenvolvem projetos de Educação Audiovisual Popular (EAP) o fazem sob a ótica de uma educação democrática e libertária.

A Educação Audiovisual Popular (EAP) é a atividade educativa gratuita, promovida por uma entidade ou agremiação informal de pessoas, voltada, entre outros objetivos, ao ensino dos meios de realização audiovisual especialmente para cinema. O público-alvo destas atividades são jovens moradores de bairros urbanos localizados em bolsões de pobreza, ou grupos socialmente marginalizados, tais como comunidades indígenas e quilombolas, portadores de necessidades especiais, frequentadores de Centros Psicossociais (CAPS e CAPS/AD), dentre outros.

Neste contexto, educadores constroem o que a cineasta denomina – em consonância com Dagmar Garroux (Da Casa do Zezinho) - “pedagoDia”, que se traduz em um método “sem método”, construído cotidianamente, num processo de aperfeiçoamento das práticas pedagógicas a partir de experiências vivenciadas a cada dia.

Metodologia e pesquisa

Para realizar a pesquisa, Moira estudou entidades que tinham como foco central o audiovisual; o desenvolvimento prático e experimental de metodologia original; características artísticas, e entidades de formação de jovens autônomos e empreendedores neste campo.

As entidades foram mapeadas inicialmente durante o processo de construção do banco de dados da seção KinoOikos Formação do Olhar do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, organizado pela Associação Cultural Kinoforum. Na parte não presencial da pesquisa, foram realizados quatro questionários. O primeiro questionário mapeou as entidades e delimitou dados como localização, perfil, contato e público da entidade; os outros três questionários tiveram como objetivo diversificar os pontos de vista sobre as entidades e projetos levantados a partir da percepção de coordenadores, educadores, alunos e ex-alunos.Todos os questionários foram preenchidos por um profissional designado livremente por cada entidade.

A segunda parte da pesquisa, realizada presencialmente e registrada em vídeo, consta de 21 entrevistas, com 30 diferentes profissionais e alunos, escolhidos por meio de diálogos com os representantes das entidades nas cidades de Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, entre fevereiro e agosto de 2009. A escolha das entidades considerou o compromisso central, efetivo e contínuo com a Educação Audiovisual Popular; o desenvolvimento intuitivo ou sistematizado de uma metodologia original de ensino audiovisual popular; a qualidade artística dos vídeos, atestada pela participação em festivais e exibições públicas; a notória qualidade na formação de jovens autônomos e empreendedores.

Houve ainda, duas entrevistas coletivas com grupos de alunos (no Cinema Nosso, no Rio de Janeiro) e de educadores (na Oficina de Imagens, em Belo Horizonte).

Educação libertária e democrática

Pedagogicamente, Moira pôde perceber que em alguma medida “desaparece o professor – enquanto autoridade distanciada do aluno – para surgir um professor acessível que valoriza tanto a participação quanto o desenvolvimento de responsabilidade e autonomia do aluno”.

Não existe a padronização de educadores e coordenadores dos projetos. Segundo a pesquisa, foram detectados “cineastas, comunicadores, artistas plásticos, professores de escolas públicas, psicólogos, antropólogos, pedagogos, assistentes sociais, fotógrafos, arquitetos, publicitários, dentre outros”.

Moira ressalta que “esta diversidade e o envolvimento dos próprios alunos gera uma convivência rica em diálogos e críticas, e os alunos são impelidos a lidar com seus sentimentos, talentos e defeitos, além de serem obrigados a aprender na prática que a crítica se destina ao trabalho e não à pessoa”.

A pesquisa ainda destaca forte predominância de autores e métodos ligados à herança das educações democrática e libertária, sendo o educador Paulo Freire um dos autores mais citados. Segundo a pesquisadora, “nota-se que Freire surge com diferentes profundidades de diálogo com o cotidiano de cada projeto, estimulando a participação, a curiosidade e a pesquisa na formação de projetos pedagógicos que valorizam o papel do educador e oferecem contribuições interessantes, viáveis e alternativas aos métodos atuais empregados nas escolas formais.

Produções no Brasil

De acordo com o estudo existem 113 entidades no Brasil que desenvolvem projetos audiovisuais; 76,5% na região sudeste e 33,5% nas demais regiões . Nos últimos vinte anos, foram realizadas ao menos 3300 produções audiovisuais de curta e média-metragem a maior parte, por jovens da periferia.

Ainda segundo a cineasta, “o Brasil é uma liderança na produção de tecnologias de educação para as mídias (internacionalmente mais conhecida como Media Literacy), porém necessita do surgimento de políticas públicas de incentivo que, aliadas às iniciativas do terceiro setor, possam fomentar projetos que dêem conta dos eixos centrais dos projetos vinculados à EAP: a gestão (compartilhada por professores e alunos), o espaço (ambientes agradáveis que estimulem a convivência), a adesão (alimentação durante o período do curso, auxílio-transporte e bolsa de estudos) e a interação (liberdade de atuação e estímulo à experimentação pedagógica, exploração)”.

Certificados

Informamos a todos os participantes do 1º Seminário de pesquisas em Educação e Linguagem que os certificados já estão disponíveis na sede do Ceel/Ufpe que fica localizada na sala 100 no 1º andar do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco.

O Seminário de Pesquisas aconteceu em 2010, durante os dias 16 e 17 de novembro, no Centro de Educação e no Centro de Artes e Comunicação da Universidade e apresentou à comunidade acadêmica os resultado das pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (Ceel/Ufpe).

Mais Informações
81 2126.8921